Aprender a viver depois de um grave acidente

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Aprender a viver depois de um grave acidente

Mensagem  Cristina Nogueira em Seg 22 Ago 2016 - 9:58



Associação apoia por ano cerca de 600 famílias e vítimas de traumatismos cranioencefálicos. Duas mães contam as suas histórias

Inês está a viver a sua primeira experiência como mulher independente, longe da casa da mãe. E sem medo fez a mala e foi para a Holanda. Partiu em abril e até ao final do ano, Fernanda Melo, 71 anos, conta visitá-la. "Sempre me esforcei para lhe incutir autonomia", diz a mãe. O final desta história é igual a tantas outras, de jovens que trocaram Portugal por outro país. Mas o início é muito diferente. Esta é uma história sobre renascer e aprender a ser uma nova pessoa.

Apesar de já terem passado 16 anos, Fernanda ainda tem dificuldade em suster as lágrimas quando recorda o acidente de carro que deixou a filha em coma profundo durante 28 dias. Por ano ocorrem cerca de seis mil casos graves de traumatismos cranioencefálicos. Depois do acidente surgem muitas perguntas e poucas respostas. A associação Novamente procura dá-las. Apoia entre seiscentas e mil famílias por ano em todo o país.

"Tudo começa com um telefonema a dar conta de um acidente. A história daí em diante - mesmo que as famílias sejam diferentes e os danos também - é semelhante: chega ao hospital, tem notícias terríveis, não sabem o que está a acontecer nem o que as espera", diz Vera Bonvalot, diretora da associação fun-dada em 2010 com o objetivo de apoiar pessoas com traumatismos cranioencefálicos e as suas famílias.

Nas contas de Vera nos últimos 20 anos Portugal teve 275 mil pessoas com casos graves de traumatismo cranioencefálico. "Existem dois tipos de vítimas: 50% são pessoas mais novas (25-50 anos) sobretudo vítimas de acidentes e os outros 50% são os mais velhos por quedas." O inesperado pode ser um acidente de carro, uma queda de uma varanda, tropeçar num passeio a escrever ao telemóvel e bater com a cabeça.

Apoiar as famílias é um trabalho diário, presencial, por telefone ou e-mail. "As pessoas não sabem o que é um traumatizado cranioencefálico, não percebem o que os médicos dizem. Estamos a fazer protocolos com os hospitais, para que os enfermeiros ou as assistentes sociais que acedem às famílias lhes falem da Novamente e lhes darmos informação. Uma situação destas é um livro em branco, que ninguém sabe como vai ser. O nosso papel é ajudar a família - se há seguro, ajudas a pedir, empréstimos por pagar, amigos em quem delegar tarefas - e fazê-los avançar porque o caminho é longo."

Nada é como nos filmes
São longos anos de recuperação, mas dificilmente um regresso ao ponto de partida, porque não voltará a ser como antes. Da primeira vez que viu a filha, logo após o acidente de carro quando vinha do Algarve e já internada nos cuidados intensivos do Hospital Garcia de Orta, não a reconheceu. Seguiram-se dias de angústia até Inês respirar sozinha e conquistar a passos pequenos alguma autonomia. "Um dia cheguei ao hospital e perguntaram-me se queria dar o almoço à minha filha. Fiquei tão contente. Pensei que era como nos filmes. Ela acordava e começava logo a falar", diz Fernanda.

Não foi. Inês era alimentada por uma seringa, tinha os olhos vidrados e não respondia. Não havia certezas de nada: "O médico disse-me que podia ficar cega, surda, sem andar ou outras sequelas. Há sempre sequelas numa coisa destas." Fernanda usava os perfumes dela e da filha, "porque os cheiros podiam estimular". Andava quilómetros dentro do hospital a empurrar a cadeira de rodas sempre que a filha fazia sinal e cantarolava as músicas de infância para a estimular.

Aos poucos Inês foi recuperando, voltou a estudar e trabalhou com idosos. Mas ninguém preparou Fernanda para as mudanças que aconteceram. "O temperamento e a personalidade estavam completamente diferentes. Não tinha o hábito de fazer grandes conversas com quem não conhecia e passou a falar com toda a gente, tinha atitudes muito intempestivas e às vezes agressivas verbalmente. Faltou apoio", diz. Encontrou-o mais tarde com a Novamente e desde então aprendeu a lidar melhor com a filha.

Nunca desistir
Antes de ir para a Holanda, Inês participava nos grupos de pares da Novamente, que juntam traumatizados. Os mesmos encontros que Gonçalo frequenta. Chega de braço dado à mãe, amiga, fiel companheira de todas as horas. Tem dificuldades no equilíbrio, limitação na fala e com algumas dependências. Longe do menino dos anúncios na TV, mas um jovem "com muito amor para dar. Para ele todas as pessoas são bonitas", diz a mãe, Ana Fonseca, 53 anos, que acabou por pedir a reforma antecipada.

Gonçalo tinha 9 anos quando o acidente mudou tudo. Era dia de semana, mas a professora faltou e quis ir com o pai de carro até ao Norte. Ana acordou para a nova realidade quando a polícia lhe bateu à porta. O marido morreu e Gonçalo, hoje com 25 anos, sofreu um grave traumatismo que o deixou durante meses entre a vida e a morte. "Os médicos queriam falar comigo, mas não queria ir porque não queria ouvir as coisas graves que tinham para me dizer. Entrar na sala e ver o meu filho... foi muito doloroso", recorda.

Naquele dia o mundo caiu e desde então tem sido difícil apanhar o chão. "A equipa médica era muito distante. O apoio psicológico que me deram foi colocar-me numa sala com videovigilância e fazerem-me perguntas. Saía de lá a chorar. Não precisava de ouvir que o caso do Gonçalo era grave, precisava que me ajudassem a superar a dor que sentia. Para eles, o Gonçalo era um caso como os outros", lamenta. A dor era insustentável. Ana ganhou forças em Deus. "Dizia: És o médico dos médicos e a Ti entrego o meu filho. A fé é muito importante. A força e a coragem vem daí e aprendemos a lidar com o sofrimento."

Recusou internar o filho numa instituição e procurou soluções para o ajudar. Há seis anos encontrou a Novamente. A partilha de experiência com outras famílias ajudou-a. Ao filho, o convívio com outras pessoas que sabem o que sente. "Deram-me indicação de sítios onde o Gonçalo pode estar ocupado e ter formação. É muito importante conviver e aprender um pequeno ofício. O grupo de pares é bom, mas não chega. Este é um tema que ninguém ouve falar", diz.

Aposta na inserção profissional
Regressar à vida ativa pode ser como atravessar o deserto. Para apoiar famílias e traumatizados, a Novamente aposta em formações para cuidadores e encontros onde quem sofreu traumatismos possa sair do isolamento. Vera Bonvalot, diretora da associação, adianta que estabeleceram um protocolo o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) para criar o primeiro projeto de inserção profissional pensado para traumatizados cranioencefálicos.

A formação, que se divide em duas fases - a primeira que ajuda o doente a ganhar competências para a vida diária e de relacionamento com os outros, e a segunda com enfoque na inserção profissional que pode resultar num emprego, estágio ou apenas formação - vai ser dada em cinco centros: Vila Nova de Gaia, Coimbra, Torres Novas, Évora e Lisboa. "Já estamos a fazer contactos com pessoas com danos cerebrais que possam estar interessadas em fazer formação para encaminhar para os centros", explica Vera.

Por este ser um trabalho transversal, a associação vai juntar a Direção-Geral da Saúde, o diretor do programa da saúde mental, IEFP, Segurança Social e Instituto Nacional de Reabilitação no encontro que realiza anualmente em setembro. "Levamos as situações de quem sofre danos cerebrais, na ótica da família, para um diálogo transversal de decisores para que cheguem a algumas conclusões e que medidas possam ser implementadas no ano seguinte", explica.

Antes do fim do ano, mais duas iniciativas: uma que irá coincidir com a transmissão de dois episódios da novela Rainha das Flores onde a associação irá aparecer e que é a semana do dano cerebral com ações de sensibilização, um peditório e a associação de figuras públicas à Novamente, e um encontro em dezembro para discutir os direitos humanos da deficiência e o que tem sido feito em Portugal nesta área.



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Re: Aprender a viver depois de um grave acidente

Mensagem  Bárbara Perdigão em Ter 23 Ago 2016 - 23:00

É bastante complicado tem que se ter muita força!!





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