Miguel Oliveira: A confirmação do português “voador”

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Miguel Oliveira: A confirmação do português “voador”

Mensagem  Cristina Nogueira em Seg 28 Dez 2015 - 11:41



Nunca houve um piloto português com a dimensão e o potencial de Miguel Oliveira no motociclismo de velocidade. Já era assim quando começou a dar nas vistas ainda durante a adolescência, mas foi preciso aguardar mais algumas primaveras para confirmar as expectativas ao mais alto nível.

No último dia de Maio de 2015, no circuito italiano de Mugello, Miguel Oliveira tornou-se, aos 20 anos, no primeiro piloto nacional a vencer uma prova de MotoGP, a Fórmula 1 das duas rodas, na categoria de Moto 3. E seria apenas o início. Seguiram-se mais cinco triunfos que culminaram com o vice-campeonato mundial, o reconhecimento internacional como uma das maiores esperanças da modalidade e a confirmação de que nunca houve um piloto português com a sua dimensão e potencial no motociclismo de velocidade.

“Talvez tenha protagonizado um dos finais de temporada mais dominantes que já se viram em Moto 3. Isso deixa-me orgulhoso, mas com um sabor agridoce na boca por ter falhado por tão pouco o título”, admitiu Miguel Oliveira no final de uma época que encerrou a escassos seis pontos do primeiro lugar. Vai abandonar a Moto 3 como um piloto de referência e chegará com estatuto reforçado à categoria intermédia de Moto 2 em 2016. O último degrau antes da classe rainha de MotoGP, onde sonha chegar a tempo para partilhar as pistas com o seu grande ídolo de sempre Valentino Rossi.

Tudo isto não passava de uma miragem em Dezembro de 2005, quando o lendário motociclista italiano acabara de reclamar o sétimo título mundial da sua carreira (e somaria mais dois) e Oliveira, com apenas 10 anos de idade, enfrentava o seu primeiro grande teste internacional. Em Valência, cenário da sua última vitória no campeonato deste ano, o franzino português da Charneca da Caparica venceu categoricamente a III Edição do Metrakit MiniGP World Festival, destacando-se entre 192 dos melhores jovens pilotos mundiais, concluindo as nove voltas da corrida com 17 segundos de vantagem sobre o segundo classificado e a 19 do terceiro. Pressentia-se que estava a nascer uma estrela.

“Ele não tinha muita noção do que acabara de fazer”, contou ao Público António Lima, presidente do Motor Clube do Estoril, que acompanhou de perto as primeiras curvas de Oliveira nas pistas. “Falei com ele ao telefone pouco depois de ter acabado a corrida e ele disse-me: ‘Havia ali uns meninos a correr comigo, a corrida foi boa e ganhei’.” Para Paulo Oliveira, pai de Miguel e principal impulsionador da sua carreira, a história começa aqui: “Esse foi o primeiro passo que fez as pessoas olharem para ele. Venceu com tanta facilidade que, no final da corrida, até o quiseram desclassificar por acharem que a mota estava alterada. As verificações confirmaram que estava tudo dentro do regulamento e que o Miguel tinha feito mesmo a diferença, ganhando tudo o que havia para ganhar: pole position, recorde da pista e triunfo na corrida. Foi o início.”

Seria, de facto, o primeiro de muitos êxitos. “Aos poucos e poucos foi ganhando as competições onde participava, quer em autódromos quer em kartódromos. Notava-se que tinha uma força de vontade enorme e sempre demonstrou grande maturidade para a idade. Desde miúdo que não ficava muito exuberante quando ganhava, nem muito deprimido quando perdia, apesar de chorar às vezes”, confidenciou António Lima, que recordou também o primeiro contacto com o piloto: “A minha mulher, que trabalha na federação de motociclismo, acompanhava as competições de jovens. Um dia disse-me que havia um miúdo a correr que tinha muito jeito. Eu acabei por ir ver o Miguel a rodar num treino, tinha ele sete ou oito anos. Pela forma como fazia as trajectórias e abordava a pista demonstrava capacidade para a competição, apesar de ser ainda uma criança. Ele era muito pequenino e quase não chegava com os pés ao chão nas partidas. Numa corrida no Kartódromo de Palmela acelerou demais no arranque, a mota fez um cavalinho e foi por ali fora, deixando o Miguel sentado no chão.”

As competições em Portugal, país sem tradição no motociclismo de velocidade, tornaram-se redundantes para o crescimento do piloto, nomeado em 2004 como “Jovem Promessa” pela Confederação do Desporto. “Percebemos rapidamente que o Miguel, para evoluir, teria de sair de Portugal. O nível do motociclismo em Espanha não é comparável com nenhum outro país do mundo. Ali está montada uma autêntica fábrica de pilotos, desde os oito anos até chegarem ao MotoGP”, explicou o responsável do Motor Clube do Estoril.

No país vizinho encontra outro tipo de concorrência e estímulos, ao lado de miúdos que tinham mais capacidade e técnica, alguns mais velhos e experientes. “Ele foi obrigado a desenvolver as suas qualidades de pilotagem para poder competir directamente com os melhores e vencer corridas. Fez com que aprendesse mais rapidamente”, justificou ao Público Paulo Oliveira, também ele um ex-piloto e antigo campeão nacional de resistência, em 2002: “Não tive uma carreira longa no motociclismo. A partir de determinada altura, tive de optar entre a minha carreira e seguir o Miguel e passei a dedicar-lhe todo o meu tempo.”

Com 12 anos, pela mão do pai, Miguel Oliveira começou a correr em provas regionais em Espanha até atingir a idade mínima para disputar o competitivo Campeonato Espanhol de Velocidade (CEV), uma espécie de antecâmara do MotoGP. “Nos campeonatos espanhóis acabou por sobressair e começou a perceber-se que estava ali um caso sério”, contou ao Público Rui Belmonte, jornalista especializado em motociclismo: “Quando chegou ao CEV continuou essa progressão, confirmando todo o seu talento, até chegar a vice-campeão de Espanha, em 2010.” No mesmo ano torna-se também vice-campeão europeu.

Os êxitos abriram-lhe as portas do Mundial, onde chega em 2011, para integrar o pelotão de 125cc, a classe antecessora da Moto 3 (250cc), onde se irá estrear na temporada seguinte. Com 16 anos, torna-se no primeiro português a participar no campeonato de MotoGP. “Esse primeiro ano foi complicado, com alguns patrocinadores portugueses a desistir e a equipa [a espanhola Andalucía-Cajasol, onde corria com uma Aprilia] a atravessar dificuldades financeiras, o que impossibilitou que o Miguel fizesse o campeonato todo”, lembra Belmonte. Acabará por disputar apenas 11 das 17 corridas, que lhe valeram o 14.º lugar na classificação geral, com 44 pontos. E alcança no Grande Prémio (GP) de Portugal, no Autódromo do Estoril, o melhor registo da época, com um sétimo posto.

Ainda nesse ano, recebe um convite da Honda para participar nas últimas corridas do CEV e fazer os derradeiros desenvolvimentos daquela que seria a primeira mota da marca japonesa de Moto 3. Vence duas corridas da competição espanhola e será aos comandos de uma Suter-Honda que regressará em 2012 aos grandes palcos do motociclismo mundial para disputar a primeira temporada completa da sua carreira, ao serviço da equipa Emilio Alzamora's Estrella Galicia 0,0.

Estreia-se com um promissor quinto lugar no Qatar, mas seguem-se três abandonos consecutivos nos GPs de Espanha, Portugal e França. Recupera rapidamente dos desaires e conquista o primeiro pódio da carreira, no GP da Catalunha, quinta prova do calendário. Vai guardar o melhor para o fim, com um segundo lugar na penúltima prova, disputada na Austrália, que lhe garante o oitavo posto da geral, com 114 pontos. Mas a sua nacionalidade associada ao desinteresse de grandes patrocinadores portugueses ditam a sua saída da equipa espanhola no final da temporada.

Para o campeonato de 2013, surpreende ao assinar pela modesta Mahindra, onde terá como principal missão desenvolver a nova moto do gigante construtor indiano. Dedica-se profissionalmente à causa e não descura os resultados desportivos, compensando com uma técnica cada vez mais apurada a distância competitiva em relação aos principais candidatos. Alcança a primeira pole position da sua carreira no circuito holandês de Assen e um terceiro lugar na Malásia, numa época de grande regularidade, que lhe valeu o sexto lugar no Mundial, amealhando 150 pontos. Torna-se no piloto que melhores resultados alcançou na história na marca indiana.

A Mahindra não prescinde do português em 2014, mas o ano não corre tão bem como o anterior, alcançando apenas o último lugar do pódio na Holanda e encerrando a época no 10.º posto da geral, com 110 pontos. O excelente trabalho desenvolvido pelo piloto e o seu grande potencial, despertam o interesse dos “tubarões” da Moto 3, acabando por rumar à Ajo Motor Sport, equipa oficial da KTM. Depois de quatro anos de aprendizagem e acumular de experiência, Miguel Oliveira encontra as condições para arriscar publicamente uma candidatura ao título de 2015.

Apesar das expectativas, o ano não começa da melhor forma. Na primeira prova, no Qatar, domina nos treinos, mas acaba por ser abalroado por outro piloto logo no início da corrida que o afastará da zona de pontuação, acabando no 16.º lugar. Na corrida seguinte, no GP das Américas, nos EUA, volta a cair, chegando à terceira prova, na Argentina, sem qualquer ponto conquistado. No circuito sul-americano inicia a recuperação na tabela classificativa, conquistando a pole position e um quarto posto a rasar o pódio. Mas irá emendar tudo no GP de Espanha, com um segundo lugar.

“Sentia alguma pressão em terminar uma corrida, após um começo tão atribulado que me deixou um pouco desanimado. As expectativas eram muito altas, mas faltava obter um bom resultado. Acabei por conseguir controlar os sentimentos e, na quarta corrida, obtive um pódio em Jerez. Foi um descarregar de pressão e um alívio”, explicará mais tarde Oliveira. Mas o melhor ainda estava para vir.

A 31 de Maio, no GP de Itália, no circuito de Mugello, depois de partir da 11.ª posição da grelha, assumiu pela primeira vez a liderança a 12 voltas do final, iniciando uma luta renhida por uma vitória que confirmará na recta da meta, a encerrar a 69.ª corrida da sua carreira na maior competição mundial de motociclismo. “É difícil definir o que sinto. O cruzar da meta é uma explosão de alegria, com algumas lágrimas de felicidade. É um grande orgulho ser o único português a ganhar uma prova do Mundial. Finalmente consegui”, congratula-se, depois de se ter ouvido pela primeira vez o hino português numa prova de MotoGP.

Um mês depois voltará a sentir o mel do triunfo na Holanda, mas será a partir de Setembro que arrancará para uma recuperação estrondosa na classificação, após a KTM lhe proporcionar um novo chassi que irá colocar a sua moto ao nível dos principais adversários. Nas últimas seis corridas da temporada alcança mais quatro triunfos (Aragão, Austrália, Malásia e Valência) e dois segundos lugares (San Marino e Japão), que o colocam em posição de discutir o título na derradeira prova, ainda que com uma desvantagem assinalável para o britânico Danny Kent (Honda). Fará a sua parte, vencendo a corrida valenciana, mas o nono lugar do líder do campeonato acaba por ser suficiente para garantir o Mundial, com seis pontos de vantagem sobre o português.

“Foram cinco anos de muita progressão. Tive, sem dúvida, muitos altos e baixos, mas o desfecho é muito positivo. Estou muito contente com a minha evolução como piloto e como pessoa. As vitórias trouxeram-me muito ânimo”, resumirá Oliveira no encerramento da temporada. No próximo ano, irá estrear-se em Moto 2 (600cc), onde fará dupla com o seu grande rival deste ano Danny Kent na equipa Leopard Racing, aos comandos de uma Kalex. A classe rainha de MotoGP (1000cc) está ao virar da esquina.

“Não consigo fazer uma previsão exacta de quanto tempo demorarei a chegar à MotoGP. Posso apenas dizer que o que me tem mantido no Mundial têm sido os meus resultados e o reconhecimento do meu profissionalismo. O próximo passo irá depender um pouco dos meus resultados desportivos, do meu empenho e daquilo que possa demonstrar em pista e fora dela e que possam despertar a atenção de uma boa equipa”. O objectivo é entrar pela porta da frente na MotoGP, mas, aconteça o que acontecer, já tem um lugar reservado na história do desporto nacional.


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